domingo, 14 de fevereiro de 2021

balora (da série: das transformações que só a vida faz!)

nunca pensei gostar de cachorro

menos ainda, de uma cachorra!

seu nome é balora

(e por favor, não pronuncie aberto:

meu neto é capaz de virar seu desafeto!...)

 

pois, mas me encanto com esta traquina

que a seu modo parece uma felina.

talvez seja mesmo por isso

que firmamos esse compromisso:

eu deixo de pensar que não gosto de cachorro

e ela só late em urgências ou situação de socorro.

 

... e assim vamos indo:

eu olhando pra ela e achando lindo

no silêncio dessa tarde em que a pele arde

o barulho surdo de um carnaval sem folia

por conta de uma pandemia. 



(da casinha daponte/domingo de carnaval de 2021)



quinta-feira, 26 de março de 2020

2m x 2m [dois por dois] (da série: quando os deuses nos dão folga)




já fui bastante “solta” no mundo

em nenhum lugar parava muito tempo

depois vieram renovados ventos

e num lugar um mergulho profundo



um dia, foi a despedida

desse lugar tive que sair

foi chorar, sofrer, pedra que sente o cair

e então ressignificar o que são chegadas e saídas…



hoje estou num 2m x 2m

que a princípio pareceu minúsculo

ele de fato era ou eu não tinha músculo

pra compreender a esfera que vem depois do depois?…



não sei. quem saberá?

sei é que o mundo todo cabe aqui:

o trabalho, a espiritualidade, a música, a família, as amizades, o amor, o ki

— e infinito que houver, onde eu estiver, caberá!





(Da casinha da Vila,
em meio a sei-lá-que-dia de quarentena,
aos 25.março.2020)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

da delicadeza (da série: é preciso coragem coragem coragem!)



o que dizer?
quando dizer?
como dizer?
o que é ser?

o que manter?
o que ceder?
o que poder?
o que é ter?

como na linguagem,
nem tudo que parece ser, é.
é preciso coragem
pra saber ler o que não está sendo dito, mas se quer ―

que a delicadeza do beija-flor
não é que a flor lhe peça o beijo:
ele o dá apenas, por amor!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

mu.danças (da série: é preciso ter coragem de ser feliz)



a vida é uma roda que não pára:
outro dia ainda eu falava da vizinha que mudou,
da tristeza que causou,
e agora eu sou quem se des.lo[u]cou!...
o mundo - que era a casa/a rua/o bairro/a comunidade dentro 
e em volta até então,
o mundo parece sem chão,
apesar do chão sob o qual está o meu colchão
nessa que é minha nova morada.

são outras as paisagens,
é outra a vizinhança.
serei eu a mesma?
como ter essa ou qualquer outra certeza?…

faço uso, então,
das memórias que trago em mim
qual fogo vivo
(e do que se forja
sem nem ter forma ainda)!

e se o presente queima
pondo em brasa o que até há pouco
era o que eu tinha como certo,
sigo sem saber pra onde
(o futuro aos deuses pertence?)
mas com o porto perto
onde o coração
se ampare
ou
desponte
:
confiante no que sinto
tendo como par o destino
nessa onda de mu.danças!

(chez meu pai/casinha da vila)
consigna de 2020

"O livre-arbítrio é a capacidade de fazer com alegria aquilo que eu devo fazer."
(C.G.Jung)

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

da falta que a vizinha faz (da série: boa vizinhança)

… e amanheceu sem o som do liquidificador. 
e sem o som das vozes, e sem o som do motor. 
e sem o som do silêncio que ficava depois de toda a casa acordada sair. 
e sem a possibilidade de dizer: renatinhabielgael!benjaminmarcos!… 
tudo isso deixa na gente um imenso vácuo! 
foram tantos anos juntos que a gente parecia um grande conjunto 
― e agora faltam muitas presenças!… 
acho que por isso até adoeci, tentando elaborar essa ausência. 
acho que por isso até entristeci, mesmo sabendo que a lei da vida é a impermanência. 
porque é muito bom saber que num mundo tão fragmentado, 
a gente pode contar com a vizinhança do lado! 
e ver os meninos e meninas, filhos ou netos,
todos/as nascendo e crescendo num ambiente de afeto! 
ê mundo grande! 
ê vida! 
agora é tocar pra frente, que continua a lida! 
e “o que não voga é a preguiça de ser feliz, ou pelo menos tentar se encantar”, 
sabendo que a tianguá pode ser aqui e/ou em qualquer outro lugar! 
bien sûr!

terça-feira, 17 de setembro de 2019

De bom humor! (da série: gratidão!)

Vovó que eu mais amo!…aquilo ficou soando na minha cabeça, porque dito sem que eu esperasse. Sim, porque quando digo que tem que tomar o xarope de beterraba ou a água de limão com alho, ou que tem que comer uma fruta, ou que é hora do banho, hora de dormir, hora de acordar, hora de parar... vixe! Eu sou a bruxaimpiedosachata― e por aí vai! Mas quando já está tomado banho, depois de um dia intenso, e já se alimentou de tudo o que foi possível negociar entre o desejado e o necessário, quando já o quarto se apronta para recebê-lo às vezes com o pai, na maior parte com a mãe, às vezes comigo mesma e o cenário é o de um conto (de fadas e não raro bem cruel, como o são os de Grimm originais) ou de uma música tocada ao violão (que ele pede cantada e eu faço, à sua distração por vezes, instrumental), aí é como se o anjo invocado na reza (meu anjo da guarda/meu bom guardador/guardai minha alma/pra nosso senhor/menino jesus cristinho/rogai por nós, amém) de fato acorresse ― e o menino se transformasse e me surpreendesse com esse: Vovó que eu mais amo! Nada que me iluda, pois a vó mais amada é sempre a que está mais perto, mas em meio a tanta agrura de que se tem notícia em tempos sombrios, eu rio e agradeço e reverencio o que o gesto e a fala me indicam: os deuses (e as deusas!) estão de bom humor! Evoé!