sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

para os olhos (que não são) de azeviche (da série: amores por viver!)

os deuses (as deusas)
quando me instam,
eu obedeço!
nem tem essa
de ai ai ai:
é fazer o que alma
dita
sem qualquer desdita
porém
mas
todavia
vai-não-vai.

os deuses (as deusas)
nem me poupam:
eles (elas) sabem
que o pouco pra mim
é talvez
e que a intensidade
é uma marca 
que em mim
tem vez.

os deuses (as deusas)
são puro desafio:
quem é que se importa
com a dúvida?
viva a dúvida!
viva a dúvida,
viva a dádiva,
viva a dívida
de bem viver
o que 
tiver
de 
ser!

domingo, 15 de fevereiro de 2015

olhos de azeviche (da série: é preciso ter coragem de ser)

ando tão diferente de mim mesma
que às vezes me pergunto se eu sou eu mesma.
dei pra mudar de hábitos
de vícios
de padrões.
dei pra deixar novamente o cabelo crescer
os brincos diminuírem
os horizontes se alargarem
os medos se desminlinguirem.

dei de amar, até,
uns olhos de azeviche -
que nem sei bem o que mesmo
 hão de querer comigo... se é que!

dei de deixar
o que tiver de ser, ser.
dei de deixar de esperar,
de temer,
dei de deixar vingar
o que há muito 
tempo
clama
por 
viver.




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

baião (da série: da arte da boa vizinhança)

ganhei um doce de mamão
e um doce de banana da minha vizinha.
ganhei feijão.
com ele aprendi a fazer baião
(de dois, ou duas, o que eu sabia
fazer era algo que a mim mesma continha - rs).

fiquei muito feliz
foi com a constatação
de que a arte da boa vizinhança
é um prêmio do qual não se pode ter,
de início, a dimensão:

investimento a fundo perdido,
tudo o que se dá volta revertido
em amizade, carinho, atenção.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

consigna de 2015

"o mal é o bem no lugar errado"
(rudolf steiner)

ou dito de outro modo:

"... não há mal do qual não resulte um bem."
(voltaire in Zadig ou O Destino)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

saudade do vir a ser (da série: ehprecisotercoragemdeserfeliz)

ando com uma saudade inventada.
saudade do que ainda não veio
mas que não é realidade só imaginada

ando com tanta saudade
(saudade tão grande e danada)
desse presente que vaza
como fragrância escapada
(ou como visita que atrasa
quando tão bem aguardada), 
que só me resta acalmar
a alma
tranquilamente
na certeza de que chegue
esse já sentido agora
para que eu possa vivê-lo
uma hora
como se o instante
fosse
eternamente.

domingo, 7 de dezembro de 2014

tesão (da série: série nenhuma)

meu deus, estou com tesão!
e não estou com tesão
em nada nem em ninguém:
estou com tesão.
meu corpo todo se eriça
ao simples contato com mim mesma.
será alguma espécie de amor próprio? (rs)
ou alguma revolta, narcisismo,
rebeldia contra os abandonos do mundo?...
não sei.
só sei que estou com tesão.
talvez por conta
de uma ad.miração própria
que não há nem como contar.
deve haver um jeito de viver
esse tesão sem que ele faleça
numa masturbação.
com tudo de bonito que há
ainda por fazer nesse mundo
(que se é de abandonos,
é igualmente de acolhimentos),
eu hei de bem me encontrar
com essa forma de autopertencimento.
por ora é não fazer de ninguém
objeto do meu tesão.
se ainda for sujeito (ou sujeita),
vá lá!
mas objeto, não:
aprecio muito um encontro
pra fazê-lo em vão.

(e viva eu, então,
com meu tesão —
e que todo encontro
seja uma forma de oração!

amém!)

domingo, 30 de novembro de 2014

citação (da série: mapas da alma)

ENDEREÇO

"Onde fica a casa do amigo?",
perguntou o cavaleiro ainda no limiar da aurora.
O céu parou um instante.
Um passante ofereceu à escuridão das areias o ramo de luz que 
[trazia nos lábios,
com o dedo apontou um álamo e disse:

"Antes daquela árvore
há uma alameda mais verde que o sono de Deus
e lá o amor tem um azul do mesmo tamanho que as penas da [sinceridade.
Segue até o fim dessa rua, que termina atrás da adolescência,
e então dobra em direção da flor da solidão.

A dois passos da flor,
fica ao pé da fonte dos mitos eternos da Terra
e um medo transparente te dominará.
Na intimidade que flui no espaço, ouve um roçar:
olha uma pequena criança
que subiu num alto pinheiro para apanhar um filhote no ninho da [luz,
e então pergunta a ela:
'Onde fica a casa do meu amigo?'"

Sohrab Sepehri 
(poeta iraniano citado in Abba Kiarostami)