terça-feira, 6 de setembro de 2016

soins... (da série: é preciso ter coragem de se encantar!)

pois. e a casinha abriga agora uma família de soins... abriga talvez seja dizer muito: acolhe, quando ela resolve aparecer. e dá-lhe banana pra comer.
os gatos, enlouquecidos, são distraídos com ração.
o povo que passa na rua, em si mesmo retraído, sequer percebe a ação.
mas a vida um pouco pára quando aqueles sons que me chamaram a atenção como se de passarinhos fossem, se aproximam e provocam minha reação. o que quer que se esteja a fazer é menor diante da beleza daquele pai, daquela mãe e daqueles dois miudinhos que saltam pela grade e me olham com olhos furtivos, certos de que não vou lhes machucar. é o próprio milagre da vida diante de mim. e eu me curvo diante dele, simplesmente encantada.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

tristeza é uma forma de preguiça? (da série: das coisas novas em mim)

ah, que as sempre muitas questões nos afligindo!...
pois se tristeza é uma forma de, já fui muito preguiçosa.
sentia tristeza de monte, tantão!
acho que depois da infância, e sobretudo da morte da mãe, tristeza podia ser um outro jeito de me chamar.
pa-ra-do-xal-mente, porém, ou ao menos para quem menos me conhecia, essa tristeza não aparecia. no seu lugar – e talvez por necessidade mais do que por cálculo – o que vinha era o impulso de seguir, quase como um boi numa boiada em que perigo seria parar.
de uns tempos pra cá, no entanto, mudei. não da noite pro dia, nem do vinho para a água. mudei de vontade de ser. e mesmo à custa de mim: os perrengues que me causam ter me voltado mais em direção a isso que é só um florescer têm me aprontado.
sinto-me, contudo, mais sólida. não no sentido da frase: “tudo o que é sólido desmancha no ar”, mas justamente por sempre ter sido mais o ar e mesmo a água em mim, sentir-me sólida nada tem a ver com dureza, mas com o seu desfazimento.
nossa, nem sei como alguém me pôde amar antes de eu ser eu como sou agora. e nem que esteja no ponto (rs). mas ter abdicado da tristeza como condição deu-me tantas possibilidades – mesmo que eu ainda mal possa me mexer – que!...
nisso, a gratidão chega-me mais facilmente, as raivas se desfazem quase que como consequência, e as mágoas – essas, bem, essas más águas têm perdido sua qualidade de veneno e adquirido fluidez. de estagnadas, começam por emanar vida.
e é tão rico tudo isso, que chego a pensar que a tristeza deve ser mesmo uma forma de preguiça. agora dei de exercitar-me todo dia!

sexta-feira, 15 de julho de 2016

amor (da série: contos de parar o tempo)


com 35 anos te conheci. estava no vigor dos meus anos. tudo me parecia possível. trabalhava com crianças ― e de muita gente adulta ainda não tinha dó, como tenho hoje, em que sobra em compaixão o que àquela época me faltava em paciência.
paciência.
aprendi contigo a paciência.
a paciência dos ursos em hibernação.
a paciências dos índios em plena ação.
a paciência das baleias em gestação.
sim, contigo aprendi a paciência.
aquela que não tiveste comigo, quando mais dela precisei.
mas de tudo fica um bom.
o bom de teres me deixado foi que a mim mesma pude reencontrar,
não facilmente, mas antes que a morte me chegasse, como um dia vai chegar.
e disso tenho tirado proveito.
assim: me experimento de formas nunca antes desejadas.
tenho tido lampejos!
tenho feito de mim algo um pouco mais leve do que aquilo que te impus.
só lamento que a distância tenha nos deixado quase imunes uma à outra.
gosto (do verbo gostar) do gosto (substantivo) do amor.
gosto do amor, mesmo quando ele me vira as costas.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

o dia seguinte (da série: contos de parar o tempo)

achei, por conta da introspecção a que me propus, que só fosse tratar, nestes contos de parar o tempo, de coisas minhas. puro engano. quando o dia seguinte é o dia seguinte a um golpe (de estado), não há como não sujar as mãos...
sorte a minha a de não abrir mais a televisão. de todo modo, sempre nos chega, quando se acessa a rede virtual, tudo o que se evitou da forma mais cabal.
e quando o dia seguinte também o foi de uma decisão importante, se não para o mundo, para mim, então não há o que fazer a não ser encarar.
e o que significa encarar?
primeiro o fato de que se faz escolhas. foram, será?, as escolhas o que derrubou a presidenta? segundo a opinião pública (se é que isso existe num país dominado por uma rede de comunicação que é ao mesmo tempo partido/legislativo/judiciário – não sendo nada mais que seus próprios interesses...), as “más” escolhas são a causa de sua ruína. que, entenda-se, parecem meramente pessoais – não havia “aliados” (todos agora se espraiam no poder), não havia contexto, não havia nada a não ser aquilo que se quis como justificativa para o inominável, ou seja, a continuação das desigualdades com o aval de corrupção e com a garantia de sua inabalável naturalização.
o que advirá de tudo isso não é difícil prever. menos provável é o que poderá mover uma nação inteira que, conquanto espoliada, segue cordeiramente seu destino como se inquestionável.
eu questionei o meu. recusei-me a seguir num trabalho onde me senti desrespeitada. talvez nem o tenha sido, deliberadamente, mas não me foi possível seguir com um faz-de-conta a propósito de decisões onde só me cabia decidir aquilo sobre o qual não carecia maior decisão. isso não topo mais. se não me é dado o direito da autonomia, ao menos seja visibilizada essa condição. minha dificuldade até hoje em falar e decidir deve-se a que, em menina, muito provavelmente fui o tempo inteiro confundida com atitudes ambíguas, que me deixaram como marca uma insegurança absurda, que só a muito custo consigo vencer em cada situação enfrentada o que se reflete sobretudo naquilo que envolve o mundo da esfera pública. não. até posso errar, mas erro sabendo que tentei acertar. que a falta de decisão alheia não me afete mais, é o meu lema. mas nisso, óbvio, sempre se magoa e, também, se é magoada. faz parte, eu me digo. e sigo.
sorte a minha (se é que isso também há...) a de encontrar o texto certo na hora errada. ou seja, sempre que o tempo fecha (a hora errada), a palavra certa me cai nas mãos. hoje ela veio por intermédio do pensamento de goethe a partir de steiner, mas também a partir de um cidadão bem brasileiro, mas que a mim me parece um cidadão do mundo, tal a capacidade de visão (ampliada): jessé de souza.
a essas criaturas dedico o dia seguinte. por poder torná-lo suportável – e, quem sabe, o ponto de partida para mais uma superação.

domingo, 10 de abril de 2016

medit.ação (da série: série nenhuma)

há dias tão longos

e tão plenos

que não me permitem sequer o momento 
 
da medit.ação.

esses são dias em que o próprio dia
 
é a oração.

mãe... pra que mesmo é serve? (da série: contos de parar o tempo)

a mania de por ordem em tudo já afastou muita gente. e ainda afasta. mesmo os filhos. também, pra que serve mãe depois que se cresce? talvez, de vez em quando, pra cuidar dos netos. ou pra escutar queixas de cansaço. quem sabe, pra compartilhar aquilo que ela tiver quando nada mais restar do que se esbanjou.
por ausência absoluta de mãe em quase toda a vida, não conseguia dar essa resposta...
daí ensaiou imaginar. pode ser que mãe sirva pra gastar seu tempo no que ela quiser, e não apenas no que é útil. oxalá mãe sirva pra realizar seus próprios sonhos, e não os de outrem. se se puder ser um pouco mais condescendente, talvez até mesmo mãe namore, case, separe, namore de novo ou escolha, à revelia do que impõe a ordem vigente, a solidão não como castigo, mas como boa companhia.
há quem diga que mãe serve mesmo quando não serve pra nada: mãe pode também ser cuidada. maioria absoluta continua achando que mãe é pra se dar presente no dia das mães ou nas festas de natal ou de aniversário... nada de tão vário.
poucos, porém, refletem. refletir é ato raro em tempo louco.
mas desses poucos, por fim, pode ser que um dia um expedicionário qualquer, numa escavação de antigas eras (entre drives, dvd's e restos de uma civilização cibernética) descubra que mãe foi um dia a origem de tudo. sem mães o mundo simplesmente não existiria. e que mesmo as mães que nunca serviram senão para nada além disso (ou seja, para dar à luz a alguém no mundo) são motivo de reverência e gratidão. esse ser futuro, nascido de si mesmo a partir de profunda inspiração, pode então recolher todas as lágrimas, toda a doação, toda a dor que as mães deixaram como adubo para um mundo onde não sejam mais de fato necessárias.

sábado, 26 de março de 2016

presente (da série: amores presentes)

eu já nem lembrava mais
como eras tão bonita!
e como o mundo inteiro resplandia
quando ao invés de te expressar com palavras,
simplesmente sorrias.

e foi assim sem que eu me desse conta,
um encontro inesperado e mesmo prosaico
(porém completamente verdadeiro)
que se pode dar em meio à multidão
mas que nosso caso deu-se no banheiro:

abriste-te em risos,
eu me desarmei;
floriste inteira
e eu, surpresa,
todos os meus sisos
descartei.

e aí te foste:
como sempre, menina,
ameaçando o mundo
com tua graça fina.

e eu, do portão,
mirei-te
não como se mira um
outro ser humano
mas como quem adivinha
os planos mais profundos,
e profanos,
com que se urde a vida inteira
e seus enigmas -
e os dei-te!

(pra neguinha)