domingo, 7 de dezembro de 2014

tesão (da série: série nenhuma)

meu deus, estou com tesão!
e não estou com tesão
em nada nem em ninguém:
estou com tesão.
meu corpo todo se eriça
ao simples contato com mim mesma.
será alguma espécie de amor próprio? (rs)
ou alguma revolta, narcisismo,
rebeldia contra os abandonos do mundo?...
não sei.
só sei que estou com tesão.
talvez por conta
de uma ad.miração própria
que não há nem como contar.
deve haver um jeito de viver
esse tesão sem que ele faleça
numa masturbação.
com tudo de bonito que há
ainda por fazer nesse mundo
(que se é de abandonos,
é igualmente de acolhimentos),
eu hei de bem me encontrar
com essa forma de autopertencimento.
por ora é não fazer de ninguém
objeto do meu tesão.
se ainda for sujeito (ou sujeita),
vá lá!
mas objeto, não:
aprecio muito um encontro
pra fazê-lo em vão.

(e viva eu, então,
com meu tesão —
e que todo encontro
seja uma forma de oração!

amém!)

domingo, 30 de novembro de 2014

citação (da série: mapas da alma)

ENDEREÇO

"Onde fica a casa do amigo?",
perguntou o cavaleiro ainda no limiar da aurora.
O céu parou um instante.
Um passante ofereceu à escuridão das areias o ramo de luz que 
[trazia nos lábios,
com o dedo apontou um álamo e disse:

"Antes daquela árvore
há uma alameda mais verde que o sono de Deus
e lá o amor tem um azul do mesmo tamanho que as penas da [sinceridade.
Segue até o fim dessa rua, que termina atrás da adolescência,
e então dobra em direção da flor da solidão.

A dois passos da flor,
fica ao pé da fonte dos mitos eternos da Terra
e um medo transparente te dominará.
Na intimidade que flui no espaço, ouve um roçar:
olha uma pequena criança
que subiu num alto pinheiro para apanhar um filhote no ninho da [luz,
e então pergunta a ela:
'Onde fica a casa do meu amigo?'"

Sohrab Sepehri 
(poeta iraniano citado in Abba Kiarostami)


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

citação (da série: "mudai vossa disposição anímica")

"(...) As leis espirituais revertem as da matéria. Para nossa mente lógica, elas parecem contraditórias. Por exemplo, cada parte contém e forma o todo, mas o todo não é a soma dessas partes e as partes não emergem do todo - o todo e as partes coexistem e formam um ao outro. De maneira semelhante, quanto mais cada um de nós compreende o mundo, mais nosso mundo se alarga e mais coisas há para compreender - e assim ficamos tentando entender um mundo que nós mesmos estamos criando à medida que caminhamos; quanto mais sabemos, mais misteriosa se torna a vida. Cada movimento em direção à consciência aumenta a esfera do inconsciente - aprofundando-a e enriquecendo-a; consciente e inconsciente se desenvolvem um a partir do outro, e o nosso mundo se desenvolve a partir dos dois.
Perdemos nossa vida para poder encontrá-la. Enfrentamos a crise e a dor para podermos ser sacudidos de nosso sono e despertar; podemos até ser gratos por aqueles eventos que nos pareceram os mais doloridos e incompreendidos na época em que aconteceram. Quando odiamos, quando não conseguimos perdoar, prestamos um desserviço a nós mesmos e a ninguém mais, porque nos amarramos, e amarramos nossas energias, ao objeto do qual queremos nos livrar. E assim nos tornamos aquilo que mais desprezamos. Por outro lado, quando somos generosos, certamente somos recompensados; o ato de dar expõe uma abertura que permite ao mundo lhe retornar uma dádiva mil vezes maior. Ao mesmo tempo, a incapacidade de receber presentes e ofertas com graça se torna um obstáculo ao ato de dar - pois receber com graça as ofertas dos outros é, em si mesmo, um presente. Para que confiem em nós, é preciso confiar - a única forma de curar o sentimento de traição é oferecer confiança, e não ficar esperando uma prova de confiabilidade alheia. O caminho do espírito reverte as expectativas normais.
Não podemos andar para a frente a menos que estejamos dispostos a abrir mão das coisas; e não conseguimos abrir mão das coisas a menos que tenhamos algo para deixar para trás, a menos que tenhamos encontrado algo de valor. Não estão nos pedindo que aceitemos o que vier (porque, de qualquer jeito, a vida é cheia de contradições), mas que caminhemos ao encontro do que vier, com o discernimento construído sobre uma profunda e respeitosa compreensão, e tentemos reagir de forma apropriada."
(in "Artistas do Invisível" de Allan Kaplan, pp. 148-149)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

tenho dito ao meu coração (da série: série nenhuma)

tenho dito ao meu coração:
deixe que o vazio se instale...
não tenha medo daquilo que ele lhe fale
— e ele talvez nem fale, só cale...

tenho dito à minha menina:
eu estou bem aqui, neguinha!
não carece ter medo,
que o medo de nada vale.

tenho dito a mim mesma:
minha alma, se acalme!
a mão que tece o tecido
não julga o tempo perdido.

e nisso a vida vai seguindo,
sem ânsia, sem pressa, fluindo...


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

miserere nobis (da série: é preciso ter coragem)

se o céu for organizado
como o são essas estruturas
em que o pensar/sentir/agir
andam separados,
talvez eu não tenha nenhuma chance
de chegar a ele.

se o céu, porém, tiver
uma estrutura mais fluida
(a que talvez nem se deva dar o nome
estrutura, pois que não lhe convém, de tão lúcida...),
quem sabe um dia eu chego lá!
bato à porta e alguma entidade angelical
me conduz à sala de estar
em que deuses e deusas
estarão a me esperar
pra um cafezim com bolo
em que os assuntos do dia
sejam qualquer um,
mas nada de tão tolo
quanto pensar que organização
é sinônimo de dureza
e que pra haver precisão
se deva abrir mão da
leveza...

oxalá!