segunda-feira, 16 de abril de 2012

as sem razões da razão (da série: é preciso ter coragem de ser feliz)

quantas vezes já tive razão
e deixei de tê-la por ter!...
de que vale mesmo a vazão
da "verdade" se não é pra acolher?

eu hoje prefiro a harmonia.
mesmo a mais troncha e complexa
combinação de acordes
não me deixa mais perplexa.

até a desafinação me atrai!
tudo - menos o já vivido absurdo
de achar que cabe na mesma lei
um mundo tão rico e profuso...

sábado, 14 de abril de 2012

(citação) (da série: amores a se viver)


Delicadeza

Clarice Lispector

    Nem tudo o que escrevo resulta numa realização, resulta mais numa tentativa. O que também é um prazer. Pois nem em tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

conversas guardadas (da série: amores a se viver)

 
trago comigo conversas guardadas
muitas conversas!
conversas que nunca tive
conversas que desejei ter
conversas de que me abstive
conversas entre mim e meu ser...
 
trago comigo conversas que talvez nunca terei
mas que aqui estão
pulsando
esperando a hora de se fazer
 
 algumas nunca sairão
outras com certeza
um dia serão
a ponte entre a minha alma
e a de alguém que as acolher
 
trago comigo conversas guardadas
que mesmo enquanto nada são
vão me ajudando
a crescer
 
 
 

quinta-feira, 22 de março de 2012

a menina que catava minhocas (da série: amores a se viver)

era uma vez uma menina que catava minhocas.
catava minhocas como u’a diversão.
(o que é o mesmo que dizer:
catava minhocas como u’a oração.)
sua principal ação era ver como a terra respondia,
e nisso seu grande guia eram as minhocas e sua situação.
assim: se a terra não tinha minhocas,
de cuidados precisava.
se tinha poucas minhocas,
de ajustes necessitava.
e se tinha mais minhocas,
pronta pra plantar ela estava.

na verdade, a menina gostava mesmo era da terra.
o que é o mesmo que dizer:
a menina gostava dos seres, humanos e dos que estão por ser.
as minhocas eram só o mote pra dizer desse amor.

quinta-feira, 15 de março de 2012

da série - gatinhos (a solidão dos gatos)

a solidão dos gatos
é não saberem-se gatos
às vezes pensam que são gente
e acordam em meio a pesadelos
de humanos seres –
e sonham com saberem-se gatos
um dia, talvez, quando renascerem...

da série - é preciso ter coragem de ser feliz (como uma flor de mimulus)

tenho tido que aprender
a me espalhar
a ser ampla
(generosa, até)
maior do que eu
— eu que sempre me achei mince
(que no francês quer dizer pequena...)
não que não saiba do que sou capaz
mas sempre me sentindo como o personagem do pessoa
em “tabacaria”: a única em que a vida bate,
diante de tant@s que sempre parecem mais!
pois a vida me chamou num canto
e me disse: cresce, menina!
e quando a vida chama, não há como não ouvir.
há quem se aventure a ignorar o que ela diz —
não é à toa que tem tanta gente em sofrimento nesse mundo!...
mas eu, que me decidi por ser feliz,
não posso me dar esse luxo.
a vida chama, eu atendo.
respondo do meu jeito,
do que jeito que dá,
do que jeito que posso,
do que jeito que vou construindo
sobre os próprios restos do meu ser em cacos.
não posso dizer que seja o mais divertido nem que
me prescreveria isso, pudesse ter alternativa.
mas aceito.
e aceito com compaixão de mim mesma,
ou seja: cuidando do que ainda é frágil,
do que é como uma flor de mimulus.
ao mesmo tempo, me abrindo pro que me fechei,
sorrindo pro que já neguei,
dizendo sim ao que não considerei.
sou diferente de mim?
provavelmente, sim.
possivelmente, não.
sou esse emaranhado de sentires sem rei.
acho que talvez assim seja mais fácil me criar:
ser o que sou sem lei nenhuma
a não ser alguma que me leve
a amar.

quinta-feira, 8 de março de 2012

travessia


como lidar com o novo em mim
se tudo permanece o mesmo (a casa, os móveis, os rostos, os nós...)?
ou como lidar com o que permanece em mim
com o novo que chega veloz como um travesso?
como lidar comigo?
com o novo?
com o que permanece?
com o mesmo e com o diferente?...
em mim tudo pulsa
com um pensar que sente.
e às vezes dói o não saber
que pouco a pouco destrói
todas as certezas de antigamente...
é verdadeiramente uma travessia
esse estado que continuamente desmente
o que eu julgava ser
- e nada bota no lugar,
a não ser um leve sopro paciente
do que inda não é
mas se sabe um dia
já presente.