terça-feira, 1 de maio de 2012

sonho (da série: amores a se viver)

... e foi de novo te encontrar, mas sem te ver.
e parecia tão real, que eu mesma acreditei te ter.
e era a gente andando juntas,
e era bom e feliz,
e era em outro país.
e tinha um amigo em comum,
e tinha teus parentes,
e tinha uma atmosfera diferente
daquela que pensamos conhecer.
era uma outra época, um outro país.

e tinha as coisas lindas que você produz –
e eram como poesia e encantamento
aos olhos meus, como que uma luz.
e era tanta cor e tanto bem elaborado
que eu fiquei como quem queda deslumbrado:
apaixonada sempre pelo que vem ti,
mesmo quando não vem nada –
e eu sei que é como um espelho:
o tudo e o nada são o que estão aqui.

poesia, silêncio e ousadia... (da série: é preciso ter coragem de ser feliz)

aproveite o mar calmo,
o tempo de dizer sim!
por todos os nãos que já disse,
pense que pode haver outro fim.
aproveite pra ver o tempo que parece não passar,
a vida que parece não prover,
o tempo que não arma pra chover.
aproveite, porque tudo isso também passa.
aproveite como quem bebe e acha graça
do non sense de que é feita a própria vida.
a vida, por si só, não pede nada.
é poesia, silêncio e ousadia,
mas de per si, não pede nada.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

improviso

a casa em polvorosa
vozes ecoam sem parar
mas dentro de mim um silêncio tão grande
que nada consegue quebrar

não sei nem se é de paz
talvez seja só uma não ação
assim: quedar sem nem perceber
a diferença entre ser ou não...
 
 

terça-feira, 17 de abril de 2012

onde? (da série: amores vividos)

onde foi que eu perdi
o meu... eu?
onde foi que voltei
a encontrá-lo?
onde foi que me despi
até de deus
e onde foi que me dispus
de novo a procurá-lo?
onde foi a grande
encruzilhada
em que você
me deixou de madrugada?
onde foi aquela estrada
em que nos cruzamos
e ficamos enamoradas?
onde foi, eu sei,
que acumulei
tantas certezas incertas
- e me dei mal?
onde foi, e eu detestei,
que você me quebrou
como se fora
a coisa mais normal?
onde foi, onde foi,
onde foi o que um dia foi
- e hoje é como se jamais...?
onde foi o que ainda é
por mais que se queira
enterrar sob o nome de paz?

onde, onde foi?
por deus (ou pela deusa!),
onde?...


segunda-feira, 16 de abril de 2012

as sem razões da razão (da série: é preciso ter coragem de ser feliz)

quantas vezes já tive razão
e deixei de tê-la por ter!...
de que vale mesmo a vazão
da "verdade" se não é pra acolher?

eu hoje prefiro a harmonia.
mesmo a mais troncha e complexa
combinação de acordes
não me deixa mais perplexa.

até a desafinação me atrai!
tudo - menos o já vivido absurdo
de achar que cabe na mesma lei
um mundo tão rico e profuso...

sábado, 14 de abril de 2012

(citação) (da série: amores a se viver)


Delicadeza

Clarice Lispector

    Nem tudo o que escrevo resulta numa realização, resulta mais numa tentativa. O que também é um prazer. Pois nem em tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

conversas guardadas (da série: amores a se viver)

 
trago comigo conversas guardadas
muitas conversas!
conversas que nunca tive
conversas que desejei ter
conversas de que me abstive
conversas entre mim e meu ser...
 
trago comigo conversas que talvez nunca terei
mas que aqui estão
pulsando
esperando a hora de se fazer
 
 algumas nunca sairão
outras com certeza
um dia serão
a ponte entre a minha alma
e a de alguém que as acolher
 
trago comigo conversas guardadas
que mesmo enquanto nada são
vão me ajudando
a crescer